Série “EE em casa”: máquinas de lavar roupas

Publicado em 29/Jun/2020 às 13h50 Atualizado em 29/Jun/2020 às 17h34

Por Gabrielle Adabo
Revisão técnica: Rodolfo Gomes

Nestes tempos de pandemia muita coisa mudou, principalmente os hábitos ligados à higiene e à limpeza. Estudos já provaram que o vírus é capaz de sobreviver em superfícies por dias, inclusive nas roupas. Uma das recomendações tem sido retirar e, se possível, colocar para lavar as roupas usadas fora de casa assim que entramos no ambiente doméstico. Esse novo cuidado aumentou – e muito – a frequência com que lavamos as roupas e, portanto, o uso de mais um equipamento que consome energia elétrica: a máquina de lavar.

A máquina de lavar roupas já é considerada um item básico nas residências, como as geladeiras. Esse equipamento proporciona a redução do tempo gasto na lavagem das roupas que, na ausência desse bem, teriam que ser lavadas à mão. Esse impacto é importante especialmente para as mulheres, que ainda são as principais responsáveis por cuidar da limpeza ou manutenção de roupas e sapatos nos lares brasileiros, segundo o IBGE.

Também de acordo com o IBGE, 66% dos domicílios no Brasil têm máquina de lavar, ou seja, ainda há uma grande quantidade de brasileiros que não dispõe desse item em casa. Esse percentual dobrou de 2001 para cá: era 33,6%. O estudo “Faces das desigualdades no Brasil: um olhar sobre os que ficam para trás” (acesse aqui o estudo completo) mostra que houve um aumento considerável da posse de máquinas de lavar para famílias negras: 250% (de 15 milhões para cerca de 40 milhões) no período de 2002 a 2015. A quantidade de máquinas de lavar nos lares brasileiros mais pobres também aumentou muito nesse período, chegando a 28,9% em 2015 – mas ainda menos da metade da média nacional (que era 61% nesse ano). É preciso lembrar, também, que nesse grupo estão famílias que, ainda que tenham condições financeiras de ter uma lavadora, não podem usufruir desse bem, pois não têm acesso à água ou o fornecimento é precário.

A Pesquisa de Posse e Hábitos de Uso de Equipamentos Elétricos na Classe Residencial 2019 (PPH 2019) do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) também fornece dados importantes para compreender a realidade e o comportamento dos brasileiros. A maior parte das casas, segundo a PPH 2019, possui máquina de lavar de dez quilos ou mais de capacidade. Com relação à frequência de uso, a maior parte dos entrevistados pela pesquisa usa a máquina só uma vez por semana. Muita gente também usa com um pouco mais de frequência, de duas a três vezes por semana. Mas tem uma minoria que usa quase todos os dias, de seis a sete vezes por semana. A média é de duas lavagens por dia e a manhã é o período do dia preferido para lavar roupas.

O consumo de eletricidade

Mas, afinal, qual o impacto do uso das máquinas de lavar na nossa conta de eletricidade mensal? Esse valor varia muito de máquina para máquina, de acordo com as especificações de cada uma: capacidade, voltagem, modelo e marca, por exemplo. Há, ainda, as lavadoras do tipo inverter, tecnologia que está presente no motor da máquina e interfere na sua velocidade de funcionamento e, assim, economiza eletricidade (é a mesma tecnologia presente em alguns ares-condicionados).

O Inmetro possui uma listagem atualizada de todas as máquinas de lavar domésticas brasileiras – com capacidades de 2 a 17 kg – com as informações de consumo de energia e de água, de eficiência de lavagem e de centrifugação (acesse aqui as listas completas). Com base nessa listagem do Inmetro, podemos ver, por exemplo, que uma lavadora de roupas com abertura frontal, capacidade de 11 kg e 127 de voltagem pode consumir de 0,26 a 0,34 kWh por ciclo de lavagem (ciclo normal com água fria na capacidade nominal da máquina, no caso, 11 kg). Esta última, a menos eficiente dessa categoria, representa um total de R$ 0,27 por lavagem na conta de luz mensal (ou seja, 0,34 multiplicado por 0,79 – consideramos o preço do kWh como R$ 0,79, uma estimativa feita a partir de uma conta pessoal de energia elétrica atual, já levados em conta todos os impostos).

Agora imagine que você vive em uma casa com os hábitos mais frequentes mostrados pela PPH 2019, em que se lava roupa duas vezes por dia, ao menos uma vez na semana – o consumo desse equipamento na conta de energia seria de R$ 2,16 por mês (0,27 kWh/ciclo multiplicado por duas lavagens uma vez por semana multiplicado por quatro semanas). Já em uma casa que faz parte do grupo dos que lavam roupa todos os dias, duas vezes ao dia, esse valor vai subir para R$ 15,12 – e pode fazer muita diferença no orçamento quando somado aos outros tantos equipamentos que consomem eletricidade e entram na conta de energia.

Se ao invés da máquina menos eficiente você tivesse escolhido comprar a mais eficiente da lista com capacidade de 11 kg – a com gasto de energia de 0,26 kWh por ciclo – o valor por lavagem cairia para R$ 0,21. Ao final do mês, mesmo lavando as roupas todos os dias, duas vezes ao dia, o gasto total desse aparelho na conta de energia seria de R$ 11,76. Ou seja, se você escolhesse a lavadora menos eficiente no lugar da mais eficiente, você perderia R$ 3,36 por mês e R$ 40,32 por ano – e isso só em relação a esse equipamento, imagine se somarmos todos os equipamentos ineficientes que consomem eletricidade na casa.

Esses dados do Inmetro podem ser utilizados como um guia na hora da compra, apesar de as tabelas serem um pouco difíceis de se desbravar pela quantidade de dados. O problema é que esse esforço de consultar a tabela, no entanto, nem sempre é válido. Um estudo do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) mostrou que pode ser difícil comprar os equipamentos que consomem menos eletricidade. O Idec verificou, em setembro de 2019, quais deles, considerados mais eficientes pelo site do Inmetro, estavam disponíveis para venda nas lojas virtuais brasileiras. Para as máquinas de lavar, 28% das com melhor eficiência energética não foram encontradas nas lojas.

Dicas


Nós sabemos que é difícil mudar hábitos e que eles dependem de muitos fatores que fazem parte da rotina, cuja transformação, às vezes, foge ao nosso controle. Para as mulheres que desempenham sozinhas as tarefas domésticas, em especial, a mudança desses hábitos – como o uso frequente da máquina de lavar – pode representar uma perda de tempo precioso e tornar a rotina insustentável. As dicas a seguir são sugestões gerais do que pode ser feito para ter uma maior eficiência energética, mas que devem ser adaptadas às necessidades e realidades de cada casa:

Usar os equipamentos na capacidade máxima
Tentar, sempre que possível, juntar muitas roupas para lavar e usar a máquina na capacidade máxima, reduzindo, assim, a quantidade de vezes que a utiliza na semana. As máquinas são projetadas para ter a maior eficiência na capacidade nominal de roupas (por exemplo, se sua máquina é de 10 kg, essa é sua capacidade nominal). Sendo assim, com quantidades menores de roupas, as eficiências são menores. Dê preferência, portanto, para usar a capacidade máxima para ter uma maior eficiência. Isso não seria um problema para as máquinas do tipo inverter.

Prestar atenção à instalação elétrica (dica de segurança)
Algumas máquinas de lavar, principalmente aquelas que possuem as duas funções em um só equipamento, exigem uma instalação elétrica mais cuidadosa. Verifique na hora da compra as especificações do equipamento e se elas são adequadas às da sua residência. Não faça gambiarras na instalação (usando um adaptador, por exemplo), pois isso pode provocar choques elétricos, curtos circuitos e até incêndios – quando a fiação que passa dentro da parede aquece para além do que ela é capaz de suportar. Contrate profissionais capacitados para realizar a instalação da máquina e para avaliar a necessidade e a possibilidade de alterações na rede elétrica, se for necessário.

Usar a ENCE como guia na hora da compra
Ao comprar uma máquina de lavar, procure pela Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) nos equipamentos que encontrar à venda: ela será o seu guia. Aqui você pode ler uma postagem do IEI Explica com uma introdução sobre como funciona, de modo geral, a ENCE. Na ENCE das máquinas de lavar você encontra informações sobre a eficiência energética, indicada na quantidade de kWh, ou seja, de energia, que é consumida pelo equipamento por ciclo de lavagem. A ENCE classifica o desempenho do equipamento nas faixas de A (mais eficiente) a E (menos eficiente). No caso das máquinas, essa classificação é feita com base em quatro critérios: eficiência energética, eficiência de centrifugação, de lavagem e de consumo de água. A ENCE poderia ser um melhor guia para o consumidor se os valores das faixas de eficiência fossem atualizados com maior frequência: os de eficiência energética são os mesmos desde 2005. Essa atualização é muito importante para manter a eficácia da etiqueta. Veja o caso das máquinas de 11 kg no nosso exemplo acima. Tanto a mais eficiente (a que consome 0,26 kWh/ciclo) quanto a menos eficiente (0,34 kWh/ciclo) são classificadas como A pelo Inmetro, ou seja, o consumidor não consegue perceber pela classificação da etiqueta as diferenças na eficiência.

Economia também na água
Como a ENCE das máquinas de lavar contém a informação sobre o consumo de água, é possível escolher na hora da compra um equipamento que trará economia para o seu bolso também nesse sentido. Ela pode ser até mesmo maior que o valor economizado com eletricidade. Vamos comparar novamente as duas máquinas de 11 kg do nosso exemplo. A máquina mais eficiente em consumo de eletricidade (0,26 kWh/ciclo) consome 77,7 litros de água por ciclo. Já a menos eficiente em consumo de energia é também menos eficiente no consumo de água, pois gasta 117,4 litros por ciclo, ou seja, quase 40 litros a mais que a outra. Se considerarmos que cada litro de água custa 0,01 centavo (com base em um cálculo feito a partir de uma conta de água pessoal), o gasto de água da máquina mais eficiente vai ser de R$ 0,78 por ciclo. Se você lavar duas máquinas cheias de roupas todos os dias da semana, em um mês de quatro semanas, você vai gastar um total aproximado de R$ 43,68 por mês. Já a máquina menos eficiente gasta R$ 1,17 por lavagem, o que ao final do mês vai ser R$ 65,52, lavando roupas nessa mesma frequência. Se você optar pela máquina menos eficiente, portanto, perderá R$ 21,84 e, ao final de um ano, R$ 262,08. Isso, lembrando, só com o gasto de água. Para economizar durante o uso do equipamento, você pode prestar atenção à quantidade de enxágues de cada ciclo e optar pelo programa com enxágue único ou mais curto. Há máquinas que permitem, inclusive, reutilizar a água da lavagem para outros fins – como lavar alguma parte da casa, por exemplo.

Desligar a máquina da tomada quando não estiver usando
Esta é uma dica da PPH 2019 do Procel. A recomendação é desligar da tomada os equipamentos elétricos que não estejam em uso, pois mesmo desligados ou no modo stand-by eles continuam consumindo eletricidade. A boa notícia é que, segundo a PPH 2019, mais de 80% das pessoas que têm máquinas de lavar no Brasil já possuem esse hábito. Um dado interessante que essa pesquisa mostra é que o percentual de pessoas com esse hábito aumenta quanto mais baixa é a classe econômica: na classe A, 77% diz ter o hábito de desligar as máquinas de lavar da tomada; na C2 ele sobre para 83%; e na D/E é quase 88%. A região Norte do país ganha de todas as regiões nesse hábito, principalmente da Sul: mais de 92% da população do Norte diz desligar as máquinas de lavar da tomada, contra 55% dos habitantes do Sul.

Leia mais:

Leia aqui o primeiro post da série "EE em casa".

Acesse aqui notícia do MonitorEE sobre o lançamento da PPH 2019.

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